AMOR NOS TEMPOS DO iPOD

por youPIX | 2 outubro 2009

por Rafael Sperling
(texto originalmente publicado em SOMESENTIDO)

Gleube Manganésfero de Sá Pretextata era um menino estranho.

Quando bebê não chorava. E mamava muito pouco. Só ficava olhando pra cara da mãe.
Engatinhou até os 6 anos de idade. Quando ia na rua, as crianças ficavam olhando aquele meninão engatinhar no chão sujo.

Quando começou a caminhar não brincou com bonecos. Nem com bola de futebol. Não brincava. Nem tinha amigos. Só ficava olhando pro nada. Quando sua mãe perguntava o que tinha, ele dizia que não tinha nada, que estava tudo bem.

Ele achava que nada tinha graça. Nada o interessava muito. Nem comida, nem amigos, nem meninas, nem meninos, animais, parentes, esportes, livros, ideias, profissões, objetivos. Nada.

Quando Gleube completou 16 anos de idade, sua vida mudou. Estava caminhando na rua, olhando para o nada, quando passou por uma vitrine. Seus olhos não podiam acreditar no que estavam vendo: um iPod.

Aquilo era a coisa mais linda que havia visto em sua vida. Seu coração começou a bater mais rápido, começou a suar frio e ficou todo arrepiado. Nunca havia se sentido daquela maneira antes, aquele estava sendo o momento mais emocionante que havia vivido até então.

Um dos vendedores da loja notou que havia um menino na vitrine da loja, com a cara colada no vidro, meio que babando e com o olhar fixado no iPod. Há uns 15 minutos.

-Olá! Posso ajuda-lo?
-…
-Er, gostaria de entrar na loja? Posso te mostrar o iPod que está na vitrine.
-…

Os dois entraram. Gleube estava com as pernas tremendo e com as mãos geladas. Mal podia acreditar que iria colocar as mãos naquele objeto divino.

-Aqui está!

Gleube segurou o iPod. De perto, em suas mãos, era mais lindo ainda que na vitrine. E achou sua textura maravilhosa. Era maravilhoso. Era perfeito. Era tudo que havia esperado sua vida inteira.

Gleube comprou o iPod.

Sua mãe notou que Gleube estava agindo de maneira diferente. Estava sorrindo mais, estudando com mais atenção. Passava as tardes trancado no seu quarto, estudando. Mas não tinha a menor ideia do motivo desta mudança superficial. Ela não podia notar a grande mudança interna de Gleube.

Mas Gleube não estava estudando mais. Ele na verdade se trancava em seu quarto e passava a tarde inteira segurando o iPod, sentado na cama.

Passou a ter sonhos estranhos. Estava sempre com seu iPod, e estavam sempre sozinhos no mundo. E nos seus sonhos ele sempre fazia mesma coisa: ficava a admirar o iPod.

Sua mãe começou a ficar preocupada com Gleube, mais que o normal. Ele só ficava andando com aquele iPod, de um lado pro outro. E continuava sem namorada e sem amigos. Suas notas escolares chegaram e ele havia sido reprovado em todas as matérias.

-Gleube, o que há de errado? Será que não gostaria de ir num psicólogo? Seu comportamento tem sido estranho.
-Estranho? Não, não. Está tudo bem, não se preocupe.

Naquela noite, Ernesta ouviu sons estranhos vindo do quarto de Gleube. Ela se levantou e se esgueirou até o seu quarto. Olhou pela fechadura.

Não podia acreditar no que estava vendo. Gleube estava fazendo sexo com o iPod.
Não pode se conter, e entrou no quarto.

-Meu filho!! O que isso?? Você está trepando com o iPod?
-Trepando não, mãe. Estamos fazendo amor.

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