KONY2012 E AS (POLÊMICAS) REVOLUÇÕES DE SOFÁ

por COLUNISTAS | 13 março 2012

por Elis Monteiro

Compartilhar é só começar. E tem gente que leva isso a sério MESMO. Para alguns, é quase obrigatório dividir  tudo o que recebe com a timeline inteira. De LolCats a correntes de Powerpoint, aquelas que sumiram do nosso email, está tudo lá. O tal botãozinho é tão sem vergonha de simples que basta clicar nele, escrever alguma coisa que chame a atenção de outros e mandar ver. Sem pensar. Afinal, todo mundo é antenado, ligado a causas sociais e está disposto a fazer parte da revolução provocada pelas redes sociais.

Mas tem um limite. E ele é muito tênue. Porque compartilhar não é apenas passar adiante – e todo mundo precisa ter consciência disso. É assinar embaixo, avaliar, indicar. E quando um amigo ou conhecido nos indica algo, deve ser bom. E assim nascem as “revoluções de sofá”, movimentos sorrateiros que muitas vezes dão certo – para o bem ou para o mal. E aqui é que mora o perigo – nem sempre as causas são honestas, do bem, provenientes de ideologias puras e simples. Na maioria vezes, ao compartilhar alguma coisa estamos simplesmente servindo de boi de piranha para interesses escusos que quase sempre vão além de nossa compreensão.

Quem frequenta o ciberespaço com certa assiduidade deve estar sabendo do rebuliço em torno do Kony2012, vídeo bombástico produzido pela ONG “Invisible Children” que tem como principal objetivo revelar ao mundo as atrocidades cometidas por Joseph Kony, líder de um grupo armado religioso de Uganda (Exército de Resistência do Senhor, ou LRA) acusado de aliciamento, assassinato, estupro e mutilação de mais de 30 mil crianças nos últimos 20 anos. Em alguns casos, tais crianças são levadas a cometer patricídio e matricídio.

 

Kony, que fugiu de Uganda há seis anos, continua na ativa, sequestrando e formando jovens soldados armados e atuando em países vizinhos. É um assunto delicado demais, que já vem sendo combatido há anos por entidades de defesa dos direitos humanos e que envolve interesses estratégicos. E aqui é difícil separar os bad guys dos good guys. Os Estados Unidos têm interesse em enviar seu poder armamentista para aquela região da África, e ele não está só nisso. Uganda, assim como outros países como Congo, Sudão e República Centro-Africana, é um antro de crimes contra a humanidade. E como combater uma situação que chegou a este ponto?

Pois os criadores do Kony2012, vídeo já considerado o maior viral de todos os tempos, decidiram tornar Joseph Kony uma estrela internacional, visando facilitar sua captura e, como consequência, os crimes bárbaros teriam fim. A questão primordial é que os EUA, como sempre se colocam na condição de salvadores do planeta. Como se não tivessem interesses escusos naquela região e em tantas outras. Foi assim com o Iraque, é assim com o Afeganistão. Eles são sempre os mocinhos.

É aqui que a coisa pega. E é neste ponto que devemos nos perguntar: no que estamos empregando nossos esforços simplesmente ao “compartilhar” um vídeo e, a reboque, uma causa? Será mesmo que tornar Joseph Kony uma celebridade internacional resolverá o problema em Uganda? Especialistas dizem que não, e a reação internacional ao vídeo nos mostra que temos a obrigação de buscar o outro lado da questão. Será que Kony2012 é mesmo tão “ingênuo”? Todo esse poder que está em nossas mãos está sendo empregado em causas realmente nobres? No que estamos nos metendo, em nome de quê estamos nos mobilizando?

 

Adam Branch, um pesquisador do Makerere Institute of Social Research, de Uganda, escreveu um artigo  muito lúcido para o site da TV Al Jazeera no qual chama de “histeria” e “ignorância perigosa” a defesa mundial das redes sociais ao movimento Kony2012. Diz ele que o vídeo, ao mobilizar políticos americanos e impelir a opinião pública a exigir o envio de tropas dos EUA a Uganda, está servindo aos interesses econômicos ianques. A tese de Branch é a de que a militarização da questão não só não resolveria o problema das “crianças invisíveis” como levaria por terra todo o esforço que tem sido empreendido por entidades de defesa dos direitos humanos nas últimas décadas. E indaga: por que os EUA aparecem, de novo, como o salvador da pátria?

O Kony2012 teve mais de 100 milhões de visualizações em apenas SEIS dias. Vou repetir: 100 milhões! Já é considerado o viral de maior sucesso da internet até agora. Mas a coisa vai muito além da internet: celebridades do porte de George Clooney se declararam a favor da campanha e todas as redes de TV americanas e europeias fizeram reportagens destacando o fenômeno e suas possíveis consequências. O Brasil seguiu atrás e Kony2012 foi trending topics no Twitter e dominou a timeline de muita gente no Facebook.

 

A própria Invisible Children, no entanto, e aqui mora o perigo, é acusada de se promover E LUCRAR com os movimentos que cria. Vende braceletes, chegou a levantar US$ 9 milhões em 2011 com campanhas de arrecadação e venda de objetos usando as redes sociais como disseminadoras de sua causa. Agora, está sendo acusada de gastar mais dinheiro fazendo campanhas para arrecadação do que fazendo caridade de fato. Ainda há acusações a respeito dos reais interesses da causa – criar um ambiente propício para a invasão americana na África, manipular a opinião pública para avalizar a ação armamentista americana em solo tão fértil em pleno coração do continente mais pobre do planeta.

As crianças que a ONG diz representar hoje são jovens doentes, mutilados e aidéticos. Precisam mais de remédios e tratamento médico do que de justiça contra Kony. Ele continua sendo um símbolo, mas uma causa tão grande, dizem os críticos, poderia ser mais bem direcionada. E os EUA, assim como outros países, poderiam se mobilizar para acabar com a fome, com as doenças, com a falta de emprego da população africana.

É aqui que devemos parar para pensar e começar a valorizar a internet como ferramenta de mobilização. Nosso “compartilhar” tem força e pode ser usado para causas legítimas. Mas é preciso cuidado – podemos estar sendo usados sem nem mesmo percebermos. Nunca tivemos uma ferramenta tão poderosa, capaz de mobilizar e transformar. Mas é preciso, antes de embarcar em qualquer “causa” da moda, pesquisar sobre o assunto, procurar referências, se informar sobre os reais interesses das mobilizações. Em ano eleitoral, então, todo cuidado é pouco. É direito de todo internauta se indignar, protestar, correr atrás do poder público, pressionar. Mas um pouco de bom senso, nem que seja para não alimentar movimentos ilícitos, é o primeiro passo para uma atitude realmente cidadã.

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