PELO DIREITO DE USAR O “CORRÃO”

por BIA GRANJA | 29 março 2012

Outro dia, dando uma palestra sobre memes e cultura de internet – e porque eu acho isso tudo algo absolutamente importante e ZERO superficial, uma pessoa me perguntou: “Muito interessante isso tudo o que você está mostrando… mas… você já leu os grandes clássicos?“.

What?

Qual grande clássico será que essa pessoa acha que eu tenho que ter lido pra me qualificar pra dar uma palestra pra ela AND afirmar que cultura de internet é importante SIM e que meme não é superficial?

A internet, sozinha, não é nada além de um repositório de informações, produtos, coisas e pessoas. Ela fica lá, esperando que a gente se conecte e, guiados pelas nossas próprias necessidades, carências ou curiosidades, extraia o que quisermos dela. Portanto, sempre que alguém fala que a web é “superficial-burra-feia-chata“, é provável que isso seja um reflexo da própria superficialidade da pessoa.

Pela primeira vez na história desse país, nós temos um lugar realmente livre e democrático pra se expressar… da forma que quisermos. Temos que lembrar que no Brasil, o ~advento da internet em si~ não representou uma mega ruptura em termos de espaço criativo pras pessoas.

No começo só existiam os grandes portais (todos pertencendo às mesmas famílias que já dominavam a grande mídia offline) e os blogs. Mas 99% das pessoas, hoje e então, acham esse lance de blog muito complicado e a quantidade de espaço disponível intimida, de modo que a verdadeira ruptura chegou junto com as redes sociais: Orkut e Youtube no começo, depois Twitter e agora o Facebook.

Através desses meios o Brasil se mostrou pro brasileiro… com todos os seus defeitos, qualidades e idiossincrasias. A maioria das gírias estilo “CORRÃO” são derivadas do tiopês que, por sua vez, derivam dos erros de português medonhos que a gente via no Orkut. Foi nessa época/rede que a gente, a ~elite~ leitora de grandes clássicos, começou a se deparar com o Brasil verdadeiro, o Brasil que é analfabeto funcional e outras coisas.

Mas eu pergunto: o que é mais importante, que a pessoa se expresse sem erros de português ou que ela se expresse? A resposta é óbvia e diz muito sobre o que é a cultura de internet e como ela se manifesta.

Por mais que achemos que “já fomos mais inteligentes“, a questão é que ANTES das redes sociais, a gente até se expressava, mas não tinha nenhuma audiência que garantisse ~expressividade pra nossa expressão~. Agora, temos a faca e o queijo na mão pra criar qualquer coisa, mesmo que essa coisa seja, em uma primeira olhada, bobinha.

Mas essa coisa bobinha é apenas a ponta do Iceberg!

 

 

Bem vindo à internet, manolo!

Pela primeira vez na história de nossas vidas, o poder de criar algo está nas nossas mãos. A cultura, a informação e o entretenimento deixaram de ser coisas ditadas por grandes conglomerados de mídia, deixaram de ser passivas e se tornaram organismos vivos e interativos. Agora é o povo que diz o que vai estar em pauta, é ele que detém o poder de construir uma nova cultura.

O miguxês, o “CORRÃO“, os memes, as pessoas ridículas cantando música gospel no Youtube, o blog com rage comics e a Luíza no Canadá são pequenas expressões dessa cultura visceral e colaborativa que já redefiniu e mudou um monte de aspectos da sociedade, consumo, governo, corporações e afins.

Portanto, quem acha isso tudo idiota ou superficial é o verdadeiro idiota/superficial que não consegue enxergar o quanto isso é poderoso e importante.

Não se trata de ser mais ou menos inteligente, se trata de fazer parte, se trata, simplesmente, de FAZER! Sim, ainda estamos engatinhando nessa coisa de fazer a gente mesmo, é tudo novo… estamos pegando o jeito, estamos testando formatos, estamos experimentando mas, thank god, estamos nos divertindo no processo.

Por isso, por mais que eu saiba que a conjugação correta do verbo “CORRER” na 3a pessoal do plural do Imperativo Afirmativo seja “CORRAM“, vou continuar usando o “CORRÃO“.

Isso te incomoda?
Vá ler um grande clássico!

 

 

 

 

 

Quem escreveu:

BIA GRANJA / @biagranja

founder, publisher e curadora do youPIX.
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“memepedia”