Você deixaria de usar um app popular e útil se soubesse que a empresa faz coisas moralmente questionáveis?

por BIA GRANJA | 19 novembro 2014

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Ilustração: Pando Daily

 

Quando eu comecei a ler esse texto da Sarah Lacy no PandoDaily, o primeiro pensamento que eu tive foi “nossa, que babado”, daí eu continuei lendo e em determinado momento da leitura eu comecei a chorar. :(

Desde que eu me tornei mãe há 1 ano, uma coisa muito maluca aconteceu na minha vida: eu comecei a me importar mais com as coisas. Não foi uma mudança que eu racionalmente vi acontecer, mas de repente lá estava eu fazendo coisas que eu nunca faria antes, tipo doar uma quantidade idiota de dinheiro pra que um menininho pudesse fazer uma cirurgia nos EUA ou assistir ao seriado Sons of Anarchy pensando que Jax não passa tempo suficiente com os filhos. Pode dar risada, eu sei que é ridículo. Mas por outro lado também é bom, porque me faz pensar o mundo de um jeito diferente e talvez mais humano.

Por isso que comecei a chorar com a denúncia que Sarah Lacy fez em seu blog sobre como o Uber está empreendendo uma caçada milionária pra acabar com a vida dela e… de sua família.

O PandoDaily é um blog conhecido por não ter papas na língua. A escola de Sarah foi o Techcrunch, o blog sobre startups mais lido do mundo e, até a compra pela AOL, menos rabo preso também. Os jornalistas ali trabalhavam basicamente com verdades, críticas, denúncias e textos que não se deixavam iludir pelo hype de startups do mundo digital. Sarah abandonou seu cargo de editora-chefe do Techcrunch depois da venda pra AOL e fundou o seu PandoDaily, onde continuou cobrindo o universo das startups sem deslumbre e expondo as verdades nuas e cruas de várias delas.

Uma delas é o Uber, aplicativo que já é famosão nos EUA há vários anos e que chega agora aqui no Brasil com muito garbo, elegância e hype. Você tem o Uber instalado aí no seu celular? Usa muito? Gosta? Recomenda?

E se você soubesse que a empresa, seus funcionários e sua cultura são extremamente machistas, misóginas, sexistas e moralmente questionáveis?

Desde 2012 a imprensa americana, principalmente o Pando, tem feito críticas ferrenhas ao Uber e discutindo sobre “como o Uber é moralmente falido”. Só pra dar alguns exemplos que Sarah citou no texto dela, a coisa começou com esse post de 2012 falando sobre como o Uber passa em cima de qualquer coisa, inclusive e principalmente pessoas, pra ter mais lucro. Continuou com um outro texto desse ano que expõe a falta de atitude do Uber em resolver a situação crescente de agressões sexuais feitas à mulheres por motoristas e denuncia a visão de “foi culpa da mulher” que a empresa adotou nessas situações. E foi crescendo com outras matérias, como essa do The Verge que revela a estratégia agressiva e extremamente suja/antiética pra derrotar o rival Lyft e, chegando na matéria do mês passado que levou o VP do Uber a declarar guerra pessoal a Sarah: ela fala sobre o quanto sexista é o Uber, sua cultura e funcionários. A coisa é tão feia, que o Uber teve que contratar um media trainer pra tentar conter as declarações absurdas e sexistas do CEO Travis Kalanick.

As acusações de misoginia e falta de ética são extensas e Sarah detalha e comenta todas elas em seu post: O momento em que eu descobri quão longe o Uber pode ir pra silenciar jornalista e atacar mulheres.

Ela escreveu o texto depois que Ben Smith, editor do Buzzfeed que já esteve no youPIX Festival em 2013, publicou que o VP do Uber, Emil Michael, havia revelado a ele que tinha montado uma equipe de investigadores pra levantar detalhes da vida pessoal de uma certa jornalista e sua família, a fim de destruir a vida dela e tentar fazer com que ela parasse de encher o saco da empresa. A jornalista era a Sarah. E de sua família fazem parte dois filhos fofos que não tem nada a ver com isso tudo.

Foi aí que o texto me pegou e me fez chorar. Uma empresa bilionária que está disposta a passar em cima de duas crianças pra conseguir crescer mais e ganhar mais dinheiro… gente, que empresa é essa? Estamos em 2014! Achei que já estivesse claro que os consumidores, que as pessoas valorizam empresas preocupadas com o seu legado, preocupadas com algo mais além de lucro.

Existem certas coisas que fazem parte da dinâmica do mercado, concorrência e afins… mas ao meu ver, o Uber foi muito além disso tudo. Estou enganada? Será que fiquei sensível demais depois da maternidade ou realmente não dá mais pra compactuar com coisas desse tipo na vida, na internet ou no táxi do Uber? Eu deletei o app do meu celular e pretendo nunca mais usar. Sabendo de todo esse absurdo (e eu recomendo que você leia o texto completo da Sarah) e sabendo o quanto o app é útil na sua vida… o que você faz?

 

 

 

 

Quem escreveu:

BIA GRANJA / @biagranja

founder, publisher e curadora do youPIX.
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