A VDD VDDR DA NOVILÍNGUA INTERNETEIRA

por ALEXANDRE INAGAKI | 29 abril 2011

Nos anos 80, foi a turma da Casseta Popular (ou do Planeta Diário, já não lembro mais) quem popularizou uma frase composta apenas de vogais, inspirada pelo vocabulário singelo dos surfistas: “Ó o auê aí, ó!”. Hoje, em tempos nos quais TODOS TUÍTA sentenças que ignoram o presente do indicativo da 3ª pessoa do plural, é possível, graças ao dialeto dos memes, criar frases só com consoantes perfeitamente inteligíveis para os iniciados: “WTF?! BLZ GLR, VLW! PQP VCS, KKKKK!!!”.

O internetês de hoje é fruto de palavras propositadamente abreviadas em janelas de MSN, tweets e SMS, devidamente fecundadas pela influência de blogueiros, twitteiros e usuários de fóruns. Você não precisa, pois, despertar o Professor Pasquale que há em você caso se depare com termos como “CORRÃO” ou “tô de BRINKS”. O mesmo idioma que tornou dinossáuricas palavras como “soviético” e “vitrola” evolui constantemente, fazendo com que palavras surgidas há poucos anos, como “troll”, “bullying” e “ecobag”, já tenham sido incorporadas no vocabulário da sua tia que ainda lhe envia PowerPoints edificantes recomendando o uso de filtro solar.

Quem estudou Guimarães Rosa no colegial já aprendeu que idiomas são organismos que, para permanecerem vivos e ativos, não caindo no limbo de línguas como o latim, necessitam incorporar novas palavras que surgem espontaneamente a partir de seu uso cotidiano. O autor de Grande Sertão: Veredas fez a sua parte, criando neologismos como “nonada”, “ensimesmudo” e “circuntristeza”. E é lembrando do exemplo do Guimarães que vejo com bons olhos a memeficação da língua portuguesa nestes tempos de trendtropicalização das novidades.

Lógico, não estou querendo dizer que os early adopters do miguxês e do tiopês são os guimarãesrosas de nossos tempos. Mas o fato é que, se o português não abrisse os braços para novos termos e influências de outras línguas, estaríamos todos falando tupi-guarani. Ou algum outro idioma que tivesse sabido se reinventar ao longo dos séculos. Como o inglês contemporâneo, que mudou muito desde o linguajar dos diálogos shakesperianos do século XVI, comportando variantes como o 133t (veja aqui) ou o LOLspeak, que inspirou até um projeto colaborativo de tradução da Bíblia, o LOLCat Bible (veja aqui) .

Faço minhas, pois, as palavras de Caetano Veloso. Que, no verso final da metalinguís- tica Língua (veja aqui) , uma ode à liberdade de uso do nosso idioma, cita Jair Rodrigues e canta: “E deixa que digam, que pensem, que falem”.

ALEXANDRE INAGAKI acha estranho, desde os tempos em que a Cláudia estava de pé, sentir saudade de algo o qual mal viveu ou evitava viver. Mais Inagaki em www.pensarenlouquece.com

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“memepedia”