Ofensas, machismo e estereótipos: a difícil vida das mulheres no YouTube

por Pedro Katchborian | 6 agosto 2014

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“Você é uma vagabunda, porque nenhuma mulher que se dê ao respeito fala palavrão”.

“Você deve usar crack ou ter aids pra ser tão magra”

“Amo seus vídeos, mas claro que sempre assisto no mudo porque o que me interessa é bater punheta para a tua boca gostosa”

 

Estes são apenas alguns dos comentários ofensivos que as mulheres recebem no YouTube.

O site, assim como qualquer outro lugar da internet, é um ambiente em que ler comentários é perigoso, já que não se sabe o que vai encontrar por ali. E o YouTube, claro, é um reflexo da nossa sociedade machista e da internet como um todo, onde tais comentários ofensivos contra a mulher são tidos como “normais” e “aceitáveis”.

Se ser mulher na “vida real” é, no mínimo, desafiador, ser mulher no youtube é quase uma tarefa ingrata. Conversamos com algumas youtubers pra saber como é a realidade delas no site de vídeos, como elas lidam com os comentários ofensivos, o preconceito no mercado no YouTube e o que deve ser feito para quebrar todos esses velhos estereótipos sobre as mulheres.

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YouTube: lugar de homem?

Dos 100 canais com mais inscritos no YouTube Brasil, apenas 11 são feitos por mulheres, sendo que o 5inco minutos, da Kéfera, é o canal feminino com mais inscritos — 3,2 milhões. “Isso é resultado de uma sociedade que prioriza homens no entretenimento desde sempre”, diz Ana De Cesaro, que tem um canal com 98 mil inscritos.

“A mulher é apenas um adereço decorativo nas produções de vídeo, como se o seu único papel fosse ser bonita e manter a boca fechada”, completa. Algumas acreditam que o negócio vai além do YouTube — apontando que o site apenas é um reflexo do mundo. “O youtube não é preconceituoso, mas o mundo sim. A galera se preocupa mais em ver se acha a gente bonita ou não. Não avalia pelo que falamos”, diz Kéfera.

Luísa Clasen, do canal Lully de Verdade, aponta para uma tendência curiosa: mulheres vêem vídeos de homens e mulheres, mas homens vêem vídeos de homens. “Existem exceções, mas em geral existe muito viewer machista que acha que mulher só serve pra tagarelar e foder“, afirma.

Além disso, Luísa diz que esse cenário negativo para as mulheres no YT pode afastar novos canais femininos: “é muita exposição, já imaginou sua família toda feliz vendo um vídeo seu e aí rola um comentário falando ‘te comia gostoso’?”, argumenta.

Já Taty Ferreira, do Acidez Feminina, diz que antes achava que existia preconceito, mas hoje em dia pensa diferente. “Atualmente já não vejo tantos comentários preconceituosos, vejo comentários que tinham a intenção de ser um elogio e virou uma cantada de pedreiro grotesca, alguns poucos comentários tentando ofender, mas não creio que isso seja preconceito, homens youtubers também recebem esse tipo de comentários”.

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“Você é uma vagabunda”

Não é nenhuma surpresa, mas todas as youtubers entrevistadas pra essa matéria falaram que já receberam comentários ofensivos em seus vídeos. Taty, do canal Acidez Feminina, deu vários exemplos: “já teve homem comentando que me achava uma vagabunda porque nenhuma mulher que se dê ao respeito fala palavrão. Tem também aqueles que fazem questão de exaltar os atributos físicos, tem gente que quando vê vídeo meu de corpo inteiro comenta  que eu devo ter Aids ou usar Crack para estar em tamanha magreza.”

Os comentários ofensivos não param por aí: “tem os que fazem propostas indecentes falando que gostaria de utilizar meus orifícios e que tem certeza que eu iria gostar já que eu ‘vivo falando putaria'”, completa.

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Lully também diz que já recebeu comentários de todo o tipo: bullying, julgando seu corpo ou a sua aparência, além dos que acham que estão elogiando quando falam obscenidades. Mas o comentário que mais a incomoda são os que relativizam seus argumentos e/ou capacidade intelectual apenas porque ela é mulher.

Ana de Cesaro também não escapou da agressividade dos comentários: “Quando comecei minha carreira recebi muitos comentários ofensivos, tanto de homens que odiavam o fato de eu ser gordinha, quanto de homens que tinham certo fetiche nisso”.

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Como lidar com tamanha agressividade?

É fato que quem se expõe na internet tem que estar preparado para críticas, mas os comentários que você vai ver a seguir não tem nada a ver com o material apresentado nos vídeos, eles são apenas agressivos, desrespeitosos, machistas e, de quebra, ainda prejudicam a vida e carreira da pessoa. Como foi dito no debate “A internet não gosta de mulheres“, que rolou no último youPIX Festival, as pessoas entendem que xingamentos na internet são algo “rude”, mas como não envolvem o físico, não são vistos como violência. Então tá! :/

E como lidar com essa agressão?

Taty resolveu ligar a tática do “foda-se“: “eu não respondo e não apago, leio e ignoro, porque do mesmo jeito que eu posso falar besteira no vídeo, qualquer um pode falar besteira nos comentários”.

Já pra Ana, a coisa pegava mais fundo: “ficava muito chateada, me sentindo vulnerável a pessoas ruins e me perguntava se valia a pena continuar”, diz Ana. Mas, pra sair da situação, ela resolveu aproveitar aquilo pro seu bem: “decidi transformar os comentários ruins que eu recebia em “poesias” e fiz dois vídeos chamados Poesias do Youtube, em que elevei os comentaristas a poetas. O público curtiu tanto que pede sequência até hoje”, diz.

Olha só:

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Lully é outra que resolveu fazer um vídeo pra falar sobre esses comentários. “Eu fiz um vídeo ironizando esses comentários (ainda é o mais visto no meu canal) e os comentários foram os piores de toda a história do Lully de Verdade”. Assista:

 

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“Você é blogueira de moda?”

Um dos estereótipos do YouTube é bem claro: se é mulher, faz vídeo sobre beleza, tutorial sobre maquiagem e tudo mais. “Isso tá tão forte no subconsciente das pessoas que até mesmo quando sou apresentada pra alguém tem gente que fala ‘Você é blogueira… de moda?'”, diz Lully.

Já Ana, diz que a criação de conteúdo voltado ao mercado de beleza e público feminino é reflexo da nossa sociedade. “Acho que muitas meninas ainda têm medo de mostrar a sua real personalidade no Youtube ou em qualquer local público, justamente por crescermos com aquela ideia ridícula de ‘isso não pode, não é coisa de mulher'”.

Taty afirma que essa associação é feita por que falar sobre beleza na internet pode ser uma receita de sucesso. “É como unir o útil ao agradável. Há um interesse feminino inerente, toda mulher quer saber se maquiar e arrumar o cabelo para viver e quem sabe, ensina”.

Kéfera aponta uma possível solução pra quebrar esse paradigma. “Não demonstrar sua vaidade. É legal se cuidar, mas se você não sair falando só sobre isso pro mundo, tem mais chance de parecer que você não se importa com isso”, diz. Já Taty, diz que isso só se quebrará quando muitas mulheres fizerem outros tipos de conteúdos que não os relacionados a saúde e beleza.space_30

 


We can do it!

Pra fechar, Lully e Ana mandaram uma mensagem pras meninas que querem ser youtubers:

“Se existe alguma mulher lendo essa matéria e com vontade de fazer conteúdo pra internet, eu digo: não desista. É difícil, tem gente te xingando e diminuindo seus argumentos só por você ser mulher, mas não desanime. Se fosse fácil a gente não se orgulharia tanto de passar por essas dificuldades”, diz Lully.

Ana também incentiva. “Nós temos de criar coragem para mostrar que também somos engraçadas, temos opinião, podemos ter atenção pelas nossas ideias e pela forma que as expomos. Podemos fazer vídeos sobre qualquer assunto e para qualquer público. Precisamos apenas de coragem. We can do it!”.

:)

 

 

Quem escreveu:

Pedro Katchborian / @pedrokatch

é repórter do youPIX. Queria ser paleontólogo, mas virou jornalista.
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